O “abraço” do urso americano

A investida da gigante Boeing contra a brasileira (ainda?) Embraer tem gerado comparações apressadas com o meganegócio envolvendo a europeia Airbus e a canadense Bombardier.

Confirmando as regras do método comparativo, as reais identidades se revelam antes nas diferenças. Se não, confira -se.

A Bombardier apresenta um histórico recente de queda no volume de entregas de aeronaves, com consequente perda de receitas nesse segmento. A empresa também atua nos segmentos ferroviário e naval. Na competição ferrenha pelo mercado de aeronaves de médio alcance, ela está perdendo o jogo para a Embraer. Isso é um fato.

A Airbus é a gigante europeia do segmento aeronáutico, concorrendo diretamente com a Boeing no mercado de grande jatos comerciais. Funcionando como uma divisão independente, a Airbus Defense and Space fabrica aeronaves militares, com foco no caça Eurofighter e no avião de transporte A400M, este para suprir a dependência dos modelos Antonov (russo) e Hércules (americano).

Aqui começam os equívocos comparativos. Parte-se da composição do grupo Airbus, com divisões autônomas e independentes, para a sugestão de um formato de negócio entre a Boeing e a Embraer que se limitasse aos jatos de médio alcance, apartando o segmento militar da empresa brasileira, como forma de “preservação” dos interesses nacionais, um engodo maior que o negócio em si.

Tanto o setor de defesa da Boeing como o da Airbus se constituem como indústrias auto-suficientes.

A Boeing é uma das cinco maiores empresas de defesa do mundo, atuando na produção de aeronaves para a Força Aérea americana no sistema de rateio de equipamentos. A USAF não tem fornecedor exclusivo, adquirindo aeronaves de várias empresas americanas, tais como a Lockheed Martin (F22 Raptor) e Northrop Grummam (Block 30 Global Hawk).

Já a Airbus desenvolve o projeto do caça Eurofighter, espécie de arma tática que reúne o auge da tecnologia aeronáutica, com custo unitário de 80 milhões de euros.

O setor militar da Embraer, por seu turno, ainda engatinha. A questão é a perspectiva de ocupar mais um nicho de mercado, como já faz com os jatos médios e com o Super Tucano. Uma aeronave de transporte militar com propulsão à jato pode se firmar como a melhor alternativa de equipamento, em comparação com as aeronaves existentes, todas equipadas com motores turbo-hélice.

O desenvolvimento de projetos militares na Embraer depende da pujança de seu setor comercial. Separados, sucumbe o KC 390 e todos os projetos vindouros.

Se o negócio entre Airbus e Bombardier preserva ambas as empresas, na lógica da divisão internacional do trabalho entre economias centrais, a investida da Boeing ameaça a existência do segmento militar da empresa brasileira. Nesse caso, mais do que uma “parceria comercial” se trata de um movimento imperialista para a garantia de um monopólio.

Os riscos são imensos, principalmente por conta da administração oportunista da Embraer, no limite da irresponsabilidade. Em 2008 foi a especulação com derivativos que resultou na demissão em massa, em fevereiro de 2009.

Mais recentemente, houve o escândalo do pagamento de propina para a venda de Super Tucanos para a República Dominicana e outros três países, gerando uma multa de centenas de milhões de dólares.

A imprensa divulga a alta das ações da empresa nas bolsas de valores, um dado volátil que nada diz sobre o futuro da Embraer.

A relevância estratégica da indústria aeronáutica, a capacidade inventiva dos trabalhadores da Embraer, a despeito da irresponsabilidade dos administradores, exige o resgate do controle acionário dessa empresa pelo governo brasileiro, para evitar o abraço do urso americano e preservar os interesses nacionais.

Artigo escrito por Dr. Aristeu César Pinto Neto – Assessoria Jurídica do Sindicato dos Metalúrgicos de São Jose dos Campos e região

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